Agostinho Vuma alerta para o risco de “provincialização” e fragmentação da cidadania económica

O presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FUNDEC), Agostinho Vuma, defende que a regulamentação da nova Lei do Conteúdo Local deve focar na inclusão económica e no fortalecimento do empresariado nacional, evitando dividir o conceito de cidadania por quotas de género, idade ou região.

A posição consta num artigo de opinião assinado pelo presidente da FUNDEC, divulgado esta terça-feira, em que aborda os desafios de implementação da norma aprovada pelo Parlamento sob proposta do Presidente Daniel Chapo.

No artigo a que o MZNews teve acesso, Vuma adverte que, após duas décadas de debates para assegurar que a exploração de recursos naturais beneficie o País, “a discussão pública corre o risco de se dispersar em exigências de conteúdos locais” específicos para mulheres, jovens ou províncias.

“A legislação é universal por definição constitucional e abrange todos os moçambicanos. A ausência de termos explícitos como mulheres ou jovens no texto da lei não significa a exclusão destes grupos, cujas necessidades devem ser atendidas através de políticas de regulamentação e capacitação focadas nas desigualdades reais”, defende Vuma.

​No texto, Vuma enfatiza que transformar a cidadania económica numa sucessão de subcategorias “abre um precedente perigoso”. O autor argumenta que o verdadeiro combate à exclusão passa por apoiar quem está em desvantagem e valorizar o mérito, em vez de criar divisões jurídicas dentro do próprio País.

​Ao abordar as reivindicações de sectores da província de Cabo Delgado, onde se concentram grandes projectos de gás, Agostinho Vuma reconhece que a “região tem direito a benefícios diferenciados pelos impactos directos que sofre”. Contudo, rejeita a ideia de limitar oportunidades com base no local de nascimento.

​Ademais, o patrono da FUNDEC recorda que o conceito de conteúdo local é económico e jurídico, e não uma questão de “naturalidade geográfica”. Vuma assinala que grande parte do gás da Bacia do Rovuma se encontra no offshore e adverte que levar a lógica geográfica ao extremo significaria uma “provincialização” do Estado unitário moçambicano, dividindo a gestão de recursos de Inhambane, Tete ou Gaza por províncias.

​Na sua óptica, Agostinho Vuma entende que o debate deve concentrar-se na garantia de que a lei cumpra o seu papel estrutural no desenvolvimento económico do País. Para o efeito, o patrono da FUNDEC destaca como prioridades operacionais: “garantir a participação efetiva de empresas moçambicanas nas cadeias de suprimento; combater a criação de sociedades fictícias e a prática de testas-de-ferro; promover a transferência real de tecnologia e o financiamento ao empresariado local; capacitar a mão-de-obra e fiscalizar os planos de contratação”.

Não obstante, Vuma apela à sociedade civil e ao sector privado para que priorizem o impacto prático da lei, assegurando que a riqueza gerada pelos recursos naturais sirva para construir capacitação nacional sustentável.

 

(Foto DR)

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